
Patrícia Severino é destaque em Farmacologia e Farmácia pelo impacto de suas pesquisas, enquanto Giancarlo Richard Salazar Banda figura entre os pesquisadores de maior repercussão acumulada na área de Energia
A repercussão internacional da produção científica de dois pesquisadores da Universidade Tiradentes (Unit) é reconhecida na edição de 2026 do World’s Top 2% Scientists, levantamento que reúne cientistas com destaque em diferentes áreas do conhecimento. A lista inclui Patrícia Severino, pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Biociências e Saúde (PBS) e da Renorbio, e Giancarlo Richard Salazar Banda, professor do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos e coordenador-geral da Pós-Graduação Stricto Sensu. Os pesquisadores aparecem em categorias distintas, que avaliam o impacto recente dos estudos e a influência científica acumulada ao longo da carreira.
Para avaliar a repercussão da produção acadêmica, o levantamento considera indicadores bibliométricos, como o número de citações recebidas, o índice h e a participação dos pesquisadores na autoria dos artigos, seja como autores únicos, primeiros ou últimos autores. A metodologia também apresenta cálculos com e sem autocitações, permitindo analisar a influência dos trabalhos considerando tanto as referências feitas pelos próprios pesquisadores quanto as recebidas de outros autores.
A elaboração da base é conduzida por pesquisadores liderados por John P. A. Ioannidis, da Universidade Stanford, com informações de perfis científicos indexados na Scopus, plataforma mantida pela Elsevier. O portal TopSciNet disponibiliza ferramentas para consulta e visualização desses dados, mas não é responsável pela metodologia original do levantamento.
De acordo com Filipe Evangelista, gerente de Inteligência Analítica do Grupo Tiradentes, a classificação abrange pesquisadores que estão entre os 100 mil primeiros colocados pelo indicador composto adotado ou entre os 2% mais bem posicionados em suas respectivas subáreas científicas. Assim, a inclusão na base representa reconhecimento segundo os critérios bibliométricos utilizados, mas não significa necessariamente que todos os pesquisadores estejam entre os 2% primeiros de uma classificação geral única. “A metodologia procura medir impacto científico e participação autoral, em vez de considerar somente o número de publicações”, explica Filipe.
Repercussão da produção recente
Na categoria Single-Year, dedicada ao impacto científico mais recente e baseada nas citações recebidas em 2025, Patrícia Severino alcançou a 66.954ª posição global no cálculo sem autocitações e a 418ª colocação em Farmacologia e Farmácia, subárea que reúne mais de 166 mil pesquisadores. Os resultados mostram crescimento em relação à edição anterior: as citações recebidas por seus trabalhos, desconsiderando as autocitações, passaram de 1.374 para 2.032, alta de aproximadamente 47,9%. Já o número de publicações citadas aumentou de 183 para 203, enquanto sua posição na subárea avançou da 509ª para a 418ª colocação.
Pelo quinto ano consecutivo na lista, a pesquisadora atribui a continuidade desse reconhecimento à dedicação à área, à cooperação científica e à relevância dos temas investigados. “Atribuo isso a três fatores. O primeiro é a constância: são quase vinte anos dedicados a uma mesma área, aprofundando o conhecimento. O segundo é a colaboração: o ranking leva um nome, mas a pesquisa é feita por equipes de estudantes, técnicos e parceiros nacionais e internacionais. O terceiro é a escolha de temas relevantes, problemas reais de saúde que interessam à comunidade científica e à sociedade”, afirma.
Tecnologia a serviço da saúde
Na área de nanobiotecnologia, Patrícia desenvolve nanoformulações e biomateriais para aplicações em saúde. As linhas de pesquisa incluem o combate ao câncer de pele, a fotoproteção, o enfrentamento da leishmaniose cutânea e a regeneração do tecido cardíaco. Entre os resultados estão curativos inteligentes desenvolvidos com propriedades cicatrizantes e antimicrobianas.
Os estudos também exploram o potencial de recursos da biodiversidade nordestina, como a aroeira, para a criação de curativos, cosméticos e soluções voltadas a doenças negligenciadas. A frente de trabalho inclui uma parceria com mulheres da Cooperativa Ecoagroextrativista Aroeira de Piaçabuçu (COOPEARP), aproximando a pesquisa científica de iniciativas de bioeconomia. O conjunto das investigações já resultou em mais de 20 patentes depositadas em áreas como câncer, leishmaniose e cicatrização, além de projetos de inovação e empreendedorismo que deram origem a startups e empresas derivadas do laboratório.
A experiência internacional da pesquisadora inclui atividades como professora visitante na Harvard Medical School, com pesquisas em biomateriais para regeneração cardíaca, e no MCPHS, por meio do programa Fulbright, onde trabalhou com filmes para terapia fotodinâmica contra o câncer de pele. Atualmente, doutorandos da Unit realizam estágio-sanduíche na University College Dublin, na Irlanda, em um projeto voltado ao desenvolvimento de biotinta para engenharia de tecido cardíaco. “Na prática, significa abrir portas. Um pesquisador reconhecido internacionalmente é convidado para colaborações, consegue enviar alunos para instituições de excelência e atrai parceiros, inclusive da indústria”, destaca Patrícia.
A pesquisadora avalia que o reconhecimento internacional também demonstra a capacidade de desenvolver ciência de relevância global fora dos principais centros tradicionais de pesquisa. “É um reconhecimento conquistado a partir de Aracaju, de um laboratório no Nordeste. Isso diz muito sobre o que a Universidade Tiradentes tem construído em pesquisa”, ressalta.
Impacto construído ao longo da carreira
Na modalidade Career-Long, que considera o impacto acumulado da produção científica até o final de 2025, Giancarlo Richard Salazar Banda ocupa a 393.392ª posição global quando são contabilizadas todas as citações e a 7.272ª colocação na subárea de Energia, entre aproximadamente 372 mil pesquisadores. Nessa área, o pesquisador está entre os 2% mais bem posicionados quando são consideradas todas as citações, um dos critérios de inclusão na base.
Com publicações registradas desde 2005, Giancarlo reúne 190 trabalhos no levantamento, dos quais 177 continuam recebendo citações mesmo quando as autocitações são excluídas. Seus estudos foram citados por mais de 3,2 mil trabalhos distintos, indicando a circulação de sua produção entre pesquisadores de diferentes estudos e instituições.
No Grupo Tiradentes, Giancarlo atua como professor do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos e coordena o Laboratório de Eletroquímica e Nanotecnologia do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP). Suas pesquisas envolvem eletroquímica, eletrocatálise e nanotecnologia, com foco em soluções para desafios relacionados à geração de energia e à preservação ambiental.
“Buscamos desenvolver novos materiais e tecnologias para contribuir com desafios como a produção de energia limpa, a redução das emissões de dióxido de carbono (CO₂) e o tratamento de águas contaminadas. Para isso, pesquisamos catalisadores para a produção de hidrogênio verde, materiais para células a combustível e processos eletroquímicos capazes de converter CO₂ em produtos de interesse energético e industrial e remover poluentes de águas e efluentes industriais”, explica.
Pesquisa, inovação e formação de novos cientistas
A trajetória de Giancarlo inclui a participação na publicação de mais de 200 artigos científicos, em sua maioria em periódicos internacionais. Entre os trabalhos que marcaram sua carreira está uma pesquisa sobre materiais à base de diamante dopado com boro para aplicações eletroquímicas, desenvolvida durante o doutorado e o pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Um artigo dessa linha, publicado em 2007, esteve entre os 25 trabalhos de maior destaque em acessos na revista Electrochemistry Communications naquele período.
Outro resultado de destaque foi o desenvolvimento de uma tecnologia que recebeu, em 2014, a Medalha de Ouro da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), vinculada às Nações Unidas. A cooperação com instituições estrangeiras também integra a trajetória do pesquisador, que realizou estágio de pesquisa na University of Southampton, na Inglaterra, e mantém parcerias com universidades espanholas. Entre elas está a Universidad de Castilla-La Mancha, com a qual foram formados seis doutores em regime de cotutela.
Para Giancarlo, o reconhecimento reflete a continuidade do trabalho científico, a publicação em revistas internacionais e a colaboração entre pesquisadores. Ele destaca a parceria com a professora Katlin Ivon Barrios Eguiluz, com quem divide a liderança do grupo de pesquisa, a orientação de estudantes e o desenvolvimento das investigações.
“Esse resultado também pertence aos alunos de iniciação científica, mestrandos, doutorandos, pós-doutorandos e professores que trabalharam e continuam trabalhando conosco, especificamente no Laboratório de Eletroquímica e Nanotecnologia do Instituto de Tecnologia e Pesquisa. Sem o trabalho árduo dos meus meninos, como eu costumo chamar, não teríamos avançado. Essa família científica é a responsável pelas produções do grupo; meu papel é mais de um guia”, afirma.
Reconhecimento com alcance social
Na avaliação de Filipe Evangelista, a presença dos dois pesquisadores na lista evidencia diferentes dimensões da produção científica vinculada à Unit: o impacto recente dos trabalhos de Patrícia Severino e a influência acumulada da carreira de Giancarlo Richard Salazar Banda. “Os resultados também apontam para a diversidade das áreas de conhecimento em que a instituição desenvolve pesquisas com repercussão internacional, especialmente saúde, farmacologia, energia, engenharia química e tecnologias relacionadas à sustentabilidade”, elenca.
Para Patrícia, um dos principais desafios é converter a visibilidade acadêmica em benefícios concretos para a sociedade. Por isso, além das pesquisas, o grupo investe em divulgação científica por meio de materiais educativos e iniciativas como o podcast Deu Nano, que aproximam o conhecimento produzido no laboratório do público em geral. “O mais importante é transformar visibilidade em impacto. Por isso investimos também em divulgação científica, como as cartilhas e o podcast Deu Nano, para que o conhecimento produzido no laboratório chegue à sociedade de forma acessível”, afirma.
Giancarlo também ressalta que o reconhecimento internacional pode contribuir para ampliar as parcerias, fortalecer as pesquisas desenvolvidas em Sergipe e aprimorar a formação de novos profissionais e cientistas. “No final, o mais importante não é simplesmente aparecer em um ranking, mas aproveitar esse reconhecimento para abrir novas oportunidades, fortalecer nossas pesquisas e oferecer uma formação cada vez melhor aos nossos estudantes”, conclui.
Por: Laís Marques
Fonte: Asscom Unit




