Após enfrentar diagnóstico de autismo, perda auditiva progressiva e desemprego, Vanizia Santos encontrou na leitura o impulso que a levou ao curso de Letras/Libras e redefiniu sua trajetória
Um livro que poderia ter ido para o descarte teve outro rumo, e transformou uma história. A partir de exemplares doados pela Universidade Tiradentes (Unit), a catadora Vanizia Santos Ferreira, de 56 anos, redescobriu seu potencial e conquistou uma vaga no curso de Letras/Libras da Universidade Federal de Sergipe (UFS), onde inicia os estudos em março. Em meio à rotina da reciclagem e a uma sequência de desafios pessoais, a leitura tornou-se ferramenta de recomeço, autonomia e construção de novos planos.
Vanizia recebeu livros usados de áreas como Direito, Economia e Psicologia por meio da instituição da qual participou, quando esteve à frente da Associação Casa do Artesão. Sem recursos para comprar materiais de estudo, ela enxergou na doação uma chance inesperada. O que parecia apenas um gesto simples acabou se tornando um divisor de águas em sua vida.
Segundo ela, os livros passaram a fazer parte do cotidiano da família. “Sempre que sobrava um tempo, eu, minha irmã e minha sobrinha nos reuníamos para ler”, relatou. Na época, não tinha hábito de leitura e enfrentava dificuldades relacionadas à memória e à aprendizagem. O diagnóstico de autismo na fase adulta, somado à constatação de perda auditiva progressiva, intensificou a sensação de limitação.
Leitura como recomeço
A virada começou após orientação médica. Conforme conta, o especialista recomendou a leitura como estímulo cognitivo, comparando o hábito a uma espécie de fisioterapia para o cérebro. A partir de então, ela passou a ler todos os dias, especialmente um livro de Direito que se tornaria emblemático em sua jornada. “Com o tempo, fui entendendo que, quando a gente lê, descobre que é capaz”, afirmou.
O livro a acompanhava na rotina diária. Após o almoço, enquanto a casa descansava, ela se dedicava à leitura. Mesmo sem estar matriculada em curso formal, percebeu avanços na memória e na organização das ideias. Os profissionais de saúde que a acompanhavam também notaram melhora cognitiva. Para Vanizia, os livros deixaram de ser apenas fonte de estudo e passaram a representar apoio emocional em um período delicado.
Esse momento coincidiu com experiências difíceis. Durante um curso técnico de Enfermagem, ela teve um episódio de amnésia em sala. Pouco depois, recebeu o diagnóstico de perda auditiva progressiva, com possibilidade de comprometimento total no futuro. O impacto foi intenso. “Saí desesperada, achando que não era capaz de nada”, recordou. Foi nesse contexto que intensificou ainda mais o hábito da leitura.
Por muito tempo, manteve guardado o exemplar de Direito que considera decisivo em sua trajetória. O livro ficava próximo à porta de casa, como símbolo de resistência. Sempre que a insegurança surgia, recorria às páginas que, segundo ela, ajudavam a reorganizar pensamentos e fortalecer a autoestima. “A leitura foi essencial para recuperar minha confiança e ampliar meus horizontes”, compartilha.
Da reciclagem à universidade
Durante a pandemia, a instituição onde atuava encerrou as atividades, e Vanizia passou a depender exclusivamente da reciclagem e do artesanato para sobreviver. A atividade, além de garantir renda mínima, abriu novas possibilidades. Por meio da igreja, soube da oferta de cursos de Libras e decidiu se inscrever, mesmo sem plena confiança em si mesma.
Concluiu um curso, depois outro e mais um, conciliando os estudos com o trabalho como catadora. Em determinado momento, surgiu a chance de prestar vestibular. Restava apenas uma vaga quando realizou a inscrição, à noite. Antes de finalizar, abriu novamente o livro de Direito que a acompanhava havia anos. “Não era sobre Libras, mas sempre me ajudava a refletir”, contou.
Vanizia fez a prova sem preparação formal e alcançou o quarto lugar entre doze candidatos com deficiência. Para comprar materiais específicos da graduação, vendeu quase todos os livros recebidos da Unit, preservando apenas o exemplar que simboliza sua transformação. Com o valor obtido, adquiriu um dicionário com cerca de três mil sinais de Libras, considerado único entre seus colegas de turma.
Hoje, vivendo sozinha e ainda enfrentando limitações financeiras, afirma que a leitura mudou completamente sua trajetória. “Um livro que seria tratado como lixo me devolveu dignidade, esperança e a coragem de acreditar em mim”, declarou. Para ela, a doação significou mais do que acesso ao conhecimento, foi o ponto de partida para uma reconstrução pessoal.
Transformação possível
A trajetória de Vanizia também dialoga com o cenário da coleta seletiva em Aracaju, que vem passando por investimentos e implantação de um novo modelo de gestão, valorizando o trabalho dos catadores. Inserida nesse contexto, ela faz questão de destacar que a aprovação na universidade não a distancia de suas origens. “Sou catadora, sim”, afirmou, ressaltando que a conquista não a coloca acima dos colegas de profissão.
Segundo ela, compreender direitos e deveres por meio da leitura ampliou sua percepção de mundo e fortaleceu o sentimento de pertencimento. A futura estudante de Letras/Libras deseja usar a formação para crescer individualmente e incentivar outras pessoas em situação de vulnerabilidade. “Quero inspirar principalmente quem vive da reciclagem e acredita que já não há mais oportunidades”, disse.
Aos 56 anos, define o momento como um recomeço. Apesar do avanço da perda auditiva, enxerga na universidade um ambiente onde poderá se desenvolver em uma língua que dialoga diretamente com sua realidade. A nova etapa na UFS carrega a marca de um gesto simples: a doação de livros que abriram caminho para o ensino superior.
“Tenho 56 anos e posso afirmar: meu mundo começa agora”, declarou. A frase sintetiza uma história em que leitura, oportunidade e perseverança se entrelaçam, evidenciando como iniciativas de acesso ao conhecimento podem gerar impactos duradouros e transformar destinos.
Por: Laís Marques
Fonte: Asscom Unit




