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Enquanto os alunos aproveitavam as férias, a cozinha da Escola Municipal Doutor Carvalho Neto, no bairro Novo Paraíso, em Aracaju, acolheu mães e avós para um aprendizado repleto de sabor e afeto. Entre panelas e fogão, 13 mulheres aprenderam a transformar açúcar, coco e amendoim em fonte de renda. O silêncio típico do recesso deu lugar ao chiado da calda no tacho e à conversa de quem enxerga, em três receitas simples, a possibilidade de ampliar horizontes.

O perfil de quem chefia o lar no Brasil

Dados da PNAD Contínua analisados pelo FGV IBRE em 2025 mostram que 51,7% dos domicílios brasileiros — 41,3 milhões de lares — têm mulheres como referência financeira, um crescimento de 87% em relação a 2012. Em Sergipe, o Censo 2022 do IBGE apontava o estado como líder nacional em lares chefiados por mulheres sem a presença do cônjuge: 136,7 mil mulheres criavam os filhos sozinhas, representando 21,61% das composições familiares.

O dado demográfico impulsiona a mulher a buscar no empreendedorismo o caminho para construir novos cenários. Em 2025, a abertura de pequenos negócios por mulheres bateu recorde no país, com mais de 2 milhões de novos CNPJs femininos — 42% do total de empresas abertas no ano, um aumento de 320 mil em relação a 2024, segundo dados da Receita Federal compilados pelo Sebrae.

Conectado com essa realidade, o Instituto João Carlos Paes Mendonça de Compromisso Social (IJCPM) realizou a segunda edição da oficina de doces. Desta vez, as alunas aprenderam a fazer pé de moça, bala baiana e cocada cremosa – receitas de baixo custo e grande demanda. "Eu já faço doces em casa, para as festas dos meus filhos e de familiares. Não trabalho com isso há muito tempo, mas estou procurando me especializar e esse curso foi uma nova oportunidade", resume a autônoma Iuriene da Silva.

Alimentação como porta de entrada

Levantamento do Sebrae em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social aponta que o segmento de alimentação é a segunda maior atividade empreendedora entre microempreendedores individuais. Pesquisa do DataSebrae de 2019 já indicava que 87% das confeitarias e docerias de micro e pequeno porte funcionavam na própria residência do empreendedor, reduzindo custos e tornando o negócio acessível.

O movimento da autônoma Vanita dos Santos reflete essa tendência. "Eu vendo doces e salgados pela redondeza - pudim, brigadeiro, beijinho, coxinha... O pessoal encomenda para festinha, aniversário, mas quero me aprimorar mais", relata. Na oficina, ela aprendeu o ponto certo da calda – que vai deixar o seu pudim ainda melhor - e novas delícias para incluir no cardápio. Selma Santos Oliveira também pretende diversificar a produção. "Não conhecia nenhum desses doces modernos. Quero começar a vender também", revela a aposentada que usa seus dons culinários para complementar a renda.

A cozinha como território de autonomia

Quem comandou as aulas foi Cristiane Bispo, culinarista do povoado Serra do Machado, em Ribeirópolis. Antes de se tornar referência local em doces artesanais, ela dividia o tempo entre o salão de beleza e o cuidado com a família. Em 2019, um acidente a afastou das tesouras e foi na cozinha onde se reencontrou. Hoje, com uma confeitaria na garagem de casa, ela também ensina receitas e incentiva outras mulheres a buscarem autonomia financeira.

Mais que compartilhar receitas, a iniciativa encurta a distância entre a qualificação e a realidade de quem não consegue pagar pelo curso ou transporte. "Quando o instituto vai até a comunidade, encurtamos esse caminho", ressalta Danielle Santana, coordenadora de Gestão e Articulação Social do IJCPM em Aracaju. E a agricultora Mariana Silva não hesitou. "Nunca tinha participado de um curso assim e a primeira chance que eu tive eu não deixei escapar", afirma.

O que fica depois do tacho esfriar

Para Iuriene, Vanita e Selma, a oficina representou a oportunidade de aperfeiçoar técnicas, diversificar o cardápio e ampliar a renda. Para Mariana, o primeiro passo. Mas todas mostram que o dado mais contundente não está nas estatísticas, mas na perspectiva de um futuro mais próspero gerada por uma ação que une acolhimento, qualificação e empreendedorismo. Um futuro que começou na cozinha de uma escola pública, numa tarde de julho, com o cheiro de cocada tomando o corredor.