Fotos: Divulgação
O estudo de pesquisadoras da Unit explora propriedades medicinais da planta e promove capacitação, fortalecendo uma cooperativa feminina no litoral de Alagoas
Um projeto desenvolvido por pesquisadoras da Universidade Tiradentes (Unit) vem unindo a pesquisa científica sobre frutos da biodiversidade brasileira às atividades de capacitação e geração de renda para mulheres de comunidades agroextrativistas. Trata-se do “Projeto Aroeira: da biodiversidade à inovação”, desenvolvido por oito professores e oito alunas de mestrado e doutorado dos programas de Pós-Graduação em Biociências e Saúde (PBS) e Engenharia de Processos (PEP).
A iniciativa realiza estudos sobre os potenciais da espécie Schinus terebinthifolius, conhecida como aroeira, para a criação de formulações medicinais e cosméticas inovadoras, além de alimentos funcionais. Ao mesmo tempo, o projeto atua em parceria com a Cooperativa Ecoagroextrativista Aroeira, em Piaçabuçu (AL), formada majoritariamente por mulheres que trabalham com o extrativismo sustentável e sistemas agroflorestais. A parceria envolve o grupo de pesquisa e as 20 mulheres atendidas pela cooperativa, que atua há cerca de 10 anos com o processamento de frutas da Mata Atlântica, com destaque para a pimenta-rosa, e também presta serviços de implantação de sistemas agroflorestais e comercialização de mudas e sementes.
“Esse projeto é um exemplo claro da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Os conhecimentos gerados no laboratório são transferidos para a comunidade por meio de capacitações e atividades práticas. Ao mesmo tempo, as demandas e saberes da comunidade orientam novas linhas de pesquisa, criando um ciclo contínuo de inovação com impacto social direto”, define a professora Patrícia Severino, docente do PBS/Unit e uma das orientadoras do projeto.
A ação de extensão promove o conhecimento em saúde feminina e a capacitação das cooperadas para a produção de sabonetes de aroeira, como alternativa de geração de renda para as famílias durante o período de entressafra. Uma das que atuam diretamente nesta ação é a enfermeira Jennifer Nascimento da Silva, aluna de doutorado do PBS e mestre em Biotecnologia Industrial pela Unit. Ela conta que a sua participação no projeto é voltada principalmente para a educação em saúde das mulheres da cooperativa, o que inclui a realização de entrevistas e exames individuais (anamnese) e abordagens sobre temas como primeiros socorros, prevenção de doenças e controle de natalidade.
“Por meio de palestras e ações práticas, levo informações utilizando uma linguagem simples e acessível, sempre respeitando a realidade e o cotidiano delas. Também procuro entender as necessidades de cada mulher, realizando um acompanhamento mais próximo para oferecer orientações tanto em grupo quanto individualmente. Esse cuidado permite que o atendimento seja mais eficaz e acolhedor. Mais do que transmitir conhecimento, buscamos construir uma relação de confiança entre profissional e paciente, fortalecendo o cuidado com a saúde das trabalhadoras”, relata Jennifer.
A doutoranda acrescenta que o projeto lhe permitiu conhecer de perto o agroextrativismo local e o trabalho desenvolvido pelas mulheres da cooperativa, o que aprofundou seus conhecimentos sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), antes presentes com mais força nos seus estudos acadêmicos. “Aprendi a valorizar não apenas o resultado da pesquisa, mas todo o processo que envolve as pessoas por trás dela. Isso me trouxe uma nova percepção sobre responsabilidade enquanto profissional, principalmente no que diz respeito ao retorno que a ciência precisa dar à sociedade”, comenta.
Atualmente, o projeto atua na comunidade de Piaçabuçu. No entanto, a professora Patrícia assegura que “o modelo é totalmente replicável e pode ser expandido para outras regiões que também trabalham com aroeira ou possuem potencial para o desenvolvimento de cadeias produtivas similares”. E acrescenta que, além da expansão para outras comunidades, o projeto prevê a ampliação das capacitações e o desenvolvimento de novos produtos. “Também estamos avançando em pesquisas com maior potencial de inovação tecnológica, incluindo registros de propriedade intelectual e possíveis parcerias com a indústria”, diz a orientadora.
As possibilidades da aroeira
A aroeira é uma planta nativa e amplamente distribuída no Brasil, com um longo histórico de uso popular no tratamento de inflamações, feridas, doenças de pele, além de distúrbios respiratórios e gastrointestinais. Suas aplicações terapêuticas já eram descritas na primeira edição da Farmacopeia Brasileira, publicada em 1926, mas estudos modernos confirmam esse potencial, apontando que extratos obtidos de suas folhas apresentam propriedades antioxidantes, antimicrobianas, anti-inflamatórias, antialérgicas, cicatrizantes e até de tratamento contra úlceras.
Na frente científica, o projeto da Unit integra uma linha de pesquisa mais ampla, voltada ao desenvolvimento de produtos inovadores a partir da biodiversidade brasileira. Entre as frentes em andamento, está o desenvolvimento de um protetor solar contendo nanopartículas de dióxido de titânio (TiO₂) biossintetizadas com extrato de aroeira. A proposta explora a utilização de extrato da aroeira na biossíntese de nanopartículas, uma abordagem alinhada aos princípios da química verde e da nanotecnologia aplicada à saúde.
“Estamos executando ainda estudos voltados para tratamento de tricomoníase, leishmaniose e cicatrização, além de desenvolver um alimento funcional, agregando valor ao fruto da aroeira”, informa Severino, citando que seu interesse pelo tema surgiu há cerca de 10 anos, ao observar o uso dos frutos da aroeira na alta gastronomia, em alimentos e bebidas. “Isso despertou minha curiosidade científica para investigar melhor suas propriedades e potencial de aplicação”, justificou ela.
O projeto conta com financiamento da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (Fapitec) e bolsas concedidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), além de parcerias institucionais com a empresa farmacêutica Aura Química e com o Senai Alimentos, instituto ligado ao Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).
Autor: Gabriel Damásio
Fonte: Asscom Unit




