Estudo sobre o potencial do óleo de licuri e tecnologia acessível para biópsia de tumores cerebrais estão entre os trabalhos premiados nesta edição
Valorizar pesquisas que promovem o avanço da ciência e geram impactos positivos para a sociedade é o objetivo do XIV Prêmio João Ribeiro de Divulgação Científica e Inovação Tecnológica. Reconhecida como uma das mais importantes iniciativas de incentivo à pesquisa, à inovação e à divulgação científica em Sergipe, a premiação homenageia trabalhos que fortalecem a produção do conhecimento e aproximam universidades, centros de pesquisa, setor produtivo e sociedade.
Nesta edição, dois representantes da Universidade Tiradentes (Unit) estiveram entre os premiados. A professora Cleide Mara Faria Soares, docente do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos (PEP) e pesquisadora do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP), venceu na categoria Pesquisador Inovador, na subcategoria Inovação Empresarial. Já o estudante de Medicina Isaac Lohan Matos Vieira foi contemplado na categoria Jovem Cientista, na subcategoria Iniciação Científica.
Bioeconomia regional
O trabalho premiado da professora e pesquisadora Cleide Mara Soares, intitulado "Processo de obtenção de emulsões por biotransformação do óleo de licuri com potencial dermatológico", representa anos de pesquisa dedicados ao aproveitamento integral do óleo de licuri, uma matéria-prima nativa do Nordeste brasileiro. Coordenada pela professora Cleide Mara e desenvolvida em parceria com os pesquisadores do LPA/LEB: a professora Adriana Santos, professora Patrícia Severino, professor Ranyere Souza e a mestre Alicia Taniara, a pesquisa busca agregar valor a esse recurso natural por meio de processos biotecnológicos inovadores.
De acordo com a pesquisadora, um dos maiores desafios do estudo foi demonstrar que um único recurso renovável pode dar origem a diferentes bioprodutos de alto valor agregado, conciliando sustentabilidade ambiental, inovação tecnológica e geração de oportunidades econômicas para comunidades locais. "Esse tema merece atenção da comunidade acadêmica e da sociedade porque está diretamente relacionado à bioeconomia, à valorização da biodiversidade brasileira e à busca por alternativas sustentáveis aos derivados de petróleo", destaca.
Os resultados obtidos comprovaram a versatilidade do óleo de licuri na produção de diferentes bioprodutos por meio de processos biocatalíticos sustentáveis. Além de ampliar o conhecimento sobre a composição química e o potencial tecnológico da matéria-prima, a pesquisa mostrou que processos enzimáticos baseados nos princípios da Química Verde podem reduzir desperdícios e estimular o aproveitamento integral da biomassa.
Trajetória científica
O reconhecimento é fruto de uma linha de pesquisa construída ao longo de vários anos e fortalecida por projetos financiados por agências de fomento, como a FAPITEC e o CNPq. A trajetória começou com iniciativas de popularização da ciência, a exemplo do Programa Meninas nas Ciências, e evoluiu por meio de novos projetos que ampliaram as parcerias científicas e contribuíram para a formação de pesquisadores. Segundo Cleide, um dos diferenciais da pesquisa está na sua natureza multidisciplinar.
“Em vez de focar em uma única aplicação, a pesquisa explorou diferentes possibilidades de transformação dessa matéria-prima, abrangendo áreas estratégicas como energia renovável, química sustentável, biotecnologia e saúde. Essa abordagem multidisciplinar demonstra como um recurso regional pode contribuir para múltiplos setores econômicos e atender a desafios globais relacionados à sustentabilidade”, pontua.
Outro fator determinante para o sucesso do trabalho foi o caráter colaborativo da pesquisa. O projeto reuniu estudantes de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado, além de pesquisadores de diversas instituições, proporcionando formação em pesquisa experimental, inovação tecnológica, produção científica e atuação interdisciplinar.
A expectativa é que os resultados sirvam de base para fortalecer novas cadeias produtivas sustentadas por recursos renováveis, impulsionar a bioeconomia regional e ampliar a interação entre universidades, empresas e comunidades produtoras, favorecendo a transferência de tecnologia e o desenvolvimento de processos industriais mais sustentáveis. Para Cleide, a premiação simboliza o reconhecimento de uma trajetória construída com dedicação, perseverança e trabalho coletivo.
“O prêmio simboliza o sucesso de uma linha de pesquisa que nasceu da valorização de um recurso regional e que foi fortalecida graças ao apoio de instituições de fomento, como a FAPITEC e o CNPq, além do suporte da Universidade Tiradentes e dos grupos parceiros. Para nossa equipe, o reconhecimento reforça a importância de investir em ciência, inovação e formação de pessoas. Também demonstra que pesquisas desenvolvidas no Nordeste podem gerar conhecimento de excelência, impacto social e soluções relevantes para os desafios do futuro”, elenca.
Tecnologia acessível
Na categoria Jovem Cientista, o estudante de Medicina Isaac Lohan Matos Vieira foi reconhecido pelo projeto "Biópsia por punção minimamente invasiva para tumores cerebrais malignos", desenvolvido no grupo de pesquisa Neuro Sergipe, cuja principal área de investigação é a neurocirurgia guiada por imagem. O estudo apresenta uma alternativa de menor custo para procedimentos de biópsia cerebral.
A tecnologia foi criada a partir de materiais simples, como seringa, fio de nylon e bisturi, oferecendo uma opção mais acessível para hospitais de pequeno e médio porte que não possuem dispositivos estereotáxicos convencionais. O projeto também integra o software NeuroKeypoint AR, aplicativo para smartphone capaz de reconstruir lesões cerebrais em três dimensões, aumentando a precisão na localização dos alvos cirúrgicos e favorecendo procedimentos menos invasivos. “Minha atuação no projeto passou por diversas etapas, como avaliação dos casos, coleta de dados, análise estatística e escrita do artigo científico”, explica.
Formação pesquisadora
Para Isaac, a iniciação científica desempenhou papel fundamental em sua formação acadêmica e profissional. "Acredito fortemente que construímos nossa carreira desde a faculdade e não apenas quando nos formamos. Por isso, ter a oportunidade de participar de cirurgias e de pesquisas com especialistas na área contribuiu não só com meu aprendizado, mas também me estimulou a seguir esse caminho no futuro”, compartilha.
O interesse pela pesquisa surgiu ainda nos primeiros períodos da graduação, quando apresentou seu primeiro trabalho em um congresso de neurologia e foi premiado, experiência que despertou o desejo de continuar produzindo conhecimento científico. Segundo o estudante, um dos principais diferenciais do projeto está justamente na criação de tecnologias de menor custo voltadas à neurocirurgia. "Essa é uma área que ainda enfrenta dificuldades por causa dos custos elevados. Por isso, é essencial que a pesquisa desenvolva alternativas mais acessíveis”, pontua.
Nos últimos três anos, Isaac atuou ao lado do orientador, o neurocirurgião Dr. Bruno Fernandes, experiência que considera decisiva tanto para sua formação quanto para a escolha da especialidade que pretende seguir. “Eu me sinto muito honrado por trabalhar ao lado do meu orientador, Dr. Bruno Fernandes, que é referência em pesquisa e neurocirurgia no nosso estado e no país. Trabalhamos juntos em diversos projetos e isso com certeza enriqueceu a minha formação, me trouxe novas perspectivas e me motivou ainda mais a escolher a minha especialidade”, diz.
Além da conquista acadêmica, o estudante acredita que a premiação representa um incentivo para seguir na carreira científica. Ele destaca ainda que a participação em grupos de pesquisa amplia a formação dos estudantes ao desenvolver competências como pensamento crítico, análise de dados, redação científica, comunicação e inovação. "Fazer pesquisa no nosso país ainda apresenta muitos desafios, mas receber esse reconhecimento mostra que vale a pena investir nessa área”, destaca.
Agora, além de concluir o Trabalho de Conclusão de Curso, Isaac integra um novo projeto de pesquisa voltado ao desenvolvimento de tecnologias de neuronavegação por smartphone, dando continuidade às investigações na área de neurocirurgia guiada por imagem.
Por: Laís Marques
Fonte: Asscom Unit




