*Por Antônio Carlos Sobral Sousa
A pirâmide alimentar voltou à mesa — e não como peça de museu, mas como manifesto. A recém-publicada proposta das Dietary Guidelines for Americans 2025–2030 recoloca no centro do debate algo que a ciência já vinha sussurrando há anos e que a prática clínica grita todos os dias: comer bem não é comer pouco, nem comer “light”; é comer comida de verdade.
Durante décadas, a alimentação moderna foi sequestrada pela lógica da conveniência. Embalagens coloridas, rótulos sedutores e promessas milagrosas ocuparam o lugar da feira, da panela e da mesa compartilhada. O resultado está nos números que assustam, mas não surpreendem: obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e um sistema de saúde que consome a maior parte de seus recursos tratando consequências, não causas. A nova pirâmide alimentar americana nasce como reação tardia — porém necessária — a esse desvio civilizatório. O primeiro gesto simbólico é poderoso: o topo e a base da pirâmide deixam de ser ideológicos e passam a ser biológicos. No alicerce, reaparecem os alimentos minimamente processados: proteínas de boa qualidade, verduras, legumes, frutas, grãos integrais e gorduras naturais. No alto, quase como um aviso em letras pequenas, ficam os ultraprocessados, o açúcar adicionado, os refinados, os corantes e as engenharias químicas que jamais frequentaram uma cozinha de verdade. Há um reposicionamento claro da proteína. Ela deixa de ser vilã e volta a ser protagonista, presente em todas as refeições, de origem animal ou vegetal, respeitando contexto, idade e nível de atividade física. A diretriz é explícita: qualidade importa mais do que dogma. Carnes, ovos, peixes, leguminosas e laticínios integrais têm lugar à mesa, desde que não venham acompanhados de açúcar oculto, amidos refinados ou aditivos industriais.
Outro ponto que chama atenção é a reabilitação das gorduras naturais. Durante anos, demonizamos a gordura e abraçamos carboidratos refinados como se fossem inofensivos. Pagamos caro por isso. A nova pirâmide reconhece o valor do azeite de oliva, da manteiga, das oleaginosas, do abacate e dos peixes ricos em ômega-3. Estabelece limites para a gordura saturada, mas deixa claro que o maior inimigo não é a gordura da comida, e sim o excesso de processamento. As frutas e os vegetais aparecem em posição de destaque, não como ornamento, mas como eixo estruturante da alimentação. A recomendação é simples e quase poética: variedade, cor e forma original. Quanto menos a comida se parecer com um produto, melhor. Até os sucos naturais são tratados com cautela, lembrando que mastigar também é um ato metabólico — e que o corpo reconhece texturas tanto quanto reconhece nutrientes.
Talvez o trecho mais contundente da proposta seja aquele dedicado ao que deve ser evitado. Não se trata de proibição moral, mas de advertência sanitária. Ultraprocessados, bebidas açucaradas, adoçantes artificiais, corantes e conservantes são apontados como disruptores do metabolismo e do microbioma intestinal, esse órgão invisível que aprendemos, finalmente, a respeitar.
Há ainda um mérito raro: a pirâmide dialoga com o ciclo da vida. Do aleitamento materno à velhice, passando pela infância, adolescência, gestação e pelas doenças crônicas, a mensagem se adapta sem perder coerência. Comer bem não é um projeto estético nem uma moda passageira; é uma estratégia de sobrevivência ao longo do tempo.
Para nós, médicos — especialmente os que lidam diariamente com infarto, AVC e insuficiência cardíaca —, a leitura provoca uma reflexão incômoda: quantas dessas recomendações já conhecíamos, mas não conseguimos transformar em política pública, prática clínica efetiva ou cultura alimentar? A pirâmide americana não traz uma revolução científica. Ela traz, isso sim, uma revolução de bom senso.
No fundo, o documento resgata uma verdade antiga, quase esquecida: a comida precede o remédio. A pirâmide não é apenas um guia nutricional; é um espelho das escolhas coletivas que fazemos todos os dias. Se será capaz de mudar hábitos, só o tempo dirá. Mas ao menos recoloca a pergunta certa no centro do prato: isso é alimento ou apenas algo que se come?
Talvez o maior mérito dessa nova pirâmide seja lembrar que saúde não se constrói apenas em consultórios ou hospitais. Ela se constrói, silenciosamente, três vezes ao dia, diante de uma mesa honesta, com comida de verdade, menos embalagens, mais descascados — e um pouco de atenção para escutar o próprio corpo. Segundo Hipócrates. “Pai da Medicina”: “Que o teu alimento seja o teu remédio, e o teu remédio seja o teu alimento. ”
*Professor Titular da UFS, Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação




