Foto: Banco de Imagens (iStock)
Atividades manuais, como o crochê, ganham espaço diante do desgaste provocado pelo excesso de telas e pela avalanche de informações
O uso constante de dispositivos digitais faz parte da rotina de grande parte da população. Entre notificações, horas nas redes sociais e a necessidade de acompanhar estímulos sem parar, o tempo diante das telas ocupa cada vez mais espaço no dia a dia e pode se tornar difícil de controlar. Em meio a esse cenário, cresce o interesse por alternativas que permitam diminuir o ritmo. É nesse contexto que os hobbies analógicos voltam a chamar a atenção dos jovens, com o crochê se destacando como uma opção para se desconectar do ambiente virtual e dedicar tempo a si mesmo.
Antes associado principalmente às gerações mais antigas, o trabalho manual passou a ser visto por muitos jovens como uma forma de autocuidado. A procura por fios e agulhas em lojas virtuais acompanha essa mudança de comportamento, indicando o interesse por atividades que permitam produzir algo concreto. Em contraste com a velocidade do universo digital, o crochê convida à paciência e à concentração, características que ajudam a explicar sua popularidade.
Uma pausa na rotina
Para o psicólogo Cleberson Costa, professor da Universidade Tiradentes (Unit), o interesse dos jovens por atividades manuais está relacionado ao desgaste mental provocado pelo excesso de informações. "Tem sido um movimento bem interessante e responsivo da juventude ao cansaço mental que o excesso de informações, através das telas, tem proporcionado. O crochê, por exemplo, é uma atividade que exige concentração e imersão, algo raro, talvez percebido como valioso, pelas novas gerações", analisa o especialista.
A dinâmica da vida contemporânea estimula a realização de várias tarefas ao mesmo tempo e a alternância constante entre diferentes fontes de informação. Esse comportamento pode aumentar a sobrecarga mental e alimentar a sensação de ansiedade. Nesse contexto, dedicar-se a uma atividade manual representa uma oportunidade de interromper esse ciclo. "Vivemos no momento mais intenso da nossa história, onde dificilmente qualquer um de nós consegue se dedicar exclusivamente a uma atividade. O hobby manual entra como dispositivo de desafogo para nós, quase que uma estratégia de sobrevivência.
Estamos exaustos de tantos estímulos e da sensação de emergência sobre tudo, e nada é tão urgente quanto cuidar de si próprio", pontua Cleberson. O especialista também associa esse envolvimento com o trabalho manual a um momento de reflexão e elaboração das experiências pessoais. "Acontece algo próximo a um processo de meditação. Digamos que seria uma 'digestão mental'. Aproveitamos de uma atividade como essa para digerirmos situações vivenciadas ou projetadas que nunca temos tempo de parar para pensar sobre, daí vamos acumulando tudo isso e proporcionando a tal da angústia. Precisamos dessas pausas", destaca.
Ao reservar um tempo para desacelerar, a pessoa também pode encontrar espaço para compreender melhor os próprios sentimentos e organizar os pensamentos. Esse exercício contribui para enfrentar situações cotidianas com mais clareza, especialmente quando emoções e experiências acabam deixadas de lado em meio às obrigações. "Através do processamento de pensamentos, podemos decidir melhor sobre tudo que nos cerca. Além disso, há inúmeros benefícios emocionais, nos quais muitas das vezes passamos por situações, sentimos, mas não processamos esse sentimento", acrescenta o psicólogo.
Em meio às interações virtuais, que nem sempre oferecem resultados concretos, acompanhar a criação de uma peça de crochê permite visualizar o resultado do próprio esforço. Cada etapa exige tempo até que o trabalho fique pronto, em um processo diferente da rapidez característica das atividades digitais.
Essa experiência de produzir algo com as próprias mãos também pode fortalecer a conexão com o presente. "Num cotidiano cada vez mais acelerado, de intimidade digital e de carência presencial, o resultado físico do crochê pode representar essa lógica física e de algo construído gradativamente, nos conectando com um tempo mais real, produtivo, afetivo e prazeroso", avalia.
Entre prazer e renda
O interesse pelo crochê também pode levar à venda das peças produzidas, transformando uma atividade de lazer em uma possibilidade de complementar a renda. Apesar dessa oportunidade, a mudança exige atenção para que a prática não deixe de ser um momento de descanso e passe a representar mais uma fonte de pressão na rotina.
Manter o propósito inicial da atividade é importante para preservar sua relação com o bem-estar emocional. "A partir do momento em que se transforma numa fonte de renda, um novo significado se soma ao inicial e, em alguns casos, pode se sobrepor. Se o crochê perder o sentido criativo, ele deixará de ocupar o espaço de autocuidado e pode ser mais uma fonte de angústia. Entender se esse é o caminho que quer seguir é importante para a saúde mental", conclui o professor.
Por: Laís Marques
Fonte: Asscom Unit




