Material é desenvolvido para a construção de tecidos cardíacos com hidrogéis e nanomateriais; pesquisa é realizada em programa de doutorado da Unit, com parte dos estudos realizada na Irlanda

Uma pesquisa realizada por uma aluna de doutorado da Universidade Tiradentes (Unit) está avançando no desenvolvimento de biotintas com hidrogeis e nanomateriais para a construção e bioimpressão de tecidos cardíacos, que poderão ser usados na recuperação de pessoas com doenças cardiovasculares. O estudo é o tema de uma tese de doutorado que está sendo desenvolvida por Érika Santos Lisboa, que cursa o terceiro ano do Doutorado em Biotecnologia pela Rede Nordeste de Biotecnologia (Renobio/Unit). Parte da pesquisa, em regime de doutorado-sanduíche, foi realizada ao longo de todo o ano passado na University College Dublin (UCD), em Dublin (Irlanda), considerada uma das principais instituições de pesquisa intensiva da Europa. 

A ida à Irlanda foi viabilizada pelo Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE), através de uma parceria entre o Laboratório de Nanotecnologia e Nanomedicina (LNMed), do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP), e outros dois grupos de pesquisa: o do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), ligado à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), no Rio de Janeiro (RJ); e o da Escola de Engenharia Química e de Bioprocessos, da UCD, cuja equipe é chefiada pela professora portuguesa Eliana Barbosa Souto. Ela é a co-orientadora da tese, juntamente com a professora Patrícia Severino, da Unit. A aluna contou ainda com uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A tese é focada no desenvolvimento de biotintas para bioimpressão 3D, utilizando hidrogéis associados a nanomateriais, como o óxido de grafeno, com aplicação em engenharia de tecidos cardíacos. O projeto é um avanço das pesquisas que a pesquisadora já vinha realizando na Unit, durante o mestrado em Biotecnologia Industrial cursado entre 2022 e 2024. Na ocasião, a dissertação foi sobre o desenvolvimento de um hidrogel de gelatina metacrilolada (GelMA) incorporado com nanofios de platina para a aplicação na produção de um tecido cardíaco 3D eletrocondutivo. 

Avanços no estudo

Desta vez, está sendo usado um outro material: nanopartículas de óxido de grafeno funcionalizado com polifenóis, para engenharia de tecidos cardíacos e triagem de fármacos. Segundo ela, a pesquisa avançou significativamente nesta etapa. O objetivo é obter sistemas com propriedades adequadas para bioimpressão e que também favoreçam a funcionalidade do tecido in vitro, como suporte estrutural, condutividade e interação celular. 

“Agora, o foco está na produção de hidrogéis e na realização de ensaios in vitro para avaliar a citocompatibilidade. O objetivo final é aplicar esses hidrogéis na área cardíaca, buscando, ao término do estudo, a obtenção de tecidos in vitro voltados à engenharia de tecidos cardíacos”, confirma Érika, indicando que tais biomateriais podem ser empregados na substituição ou reparação dos tecidos do coração. “Esse estudo tem impacto relevante na saúde, pois contribui para o desenvolvimento de biomateriais biocompatíveis com potencial aplicação na regeneração de tecidos cardíacos. No futuro, isso pode resultar em terapias mais eficazes para doenças do coração, além de reduzir testes em animais e acelerar o desenvolvimento de novos tratamentos”, acrescenta.

A tese está relacionada à área de Biotecnologia em Saúde, um dos eixos que formam a Renorbio. “Ao envolver o desenvolvimento de biotintas à base de hidrogéis e nanomateriais para aplicação em engenharia de tecidos cardíacos, traz a aplicação na área da saúde. Além disso, o uso do óxido de grafeno aproxima o trabalho da nanobiotecnologia, enquanto a bioimpressão 3D insere o estudo no campo da bioengenharia. Além disso, a possibilidade de aplicação desses sistemas tanto na regeneração tecidual quanto na construção de modelos in vitro para testes farmacológicos mostra o potencial do trabalho para o desenvolvimento de novas tecnologias em saúde”, destacou Érika. 

Ela afirma também que a experiência do doutorado-sanduíche reforçou seu desejo de retornar e continuar sua trajetória internacional, em possíveis bolsas de pós-doutorado e numa futura carreira profissional como professora e pesquisadora. “Foi extremamente enriquecedora, tanto científica quanto pessoal, com acesso a tecnologias avançadas e um ambiente mais internacional e colaborativo. A doutoranda que retorna ao Brasil volta mais confiante e preparada, após toda a experiência vivida”, diz ela, assinalando que “a Unit foi fundamental para minha formação e para que eu pudesse chegar a essa experiência”.

Mesmo antes de concluída, a pesquisa de Érika ganhou destaque nacional e a fez ser escolhida entre as vencedoras do prêmio “25 Mulheres na Ciência da América Latina”, promovido pela 3M. A pesquisadora já retornou ao Brasil em meados deste mês e a previsão é de que ela apresente sua tese na Unit até o final de 2027. 

Nos campos irlandeses

A University College Dublin (UCD), onde a aluna da Unit está fazendo parte de seu doutorado, é considerada uma das mais internacionalizadas do mundo. Ela conta hoje com mais de 38 mil estudantes vindos de 152 países, incluindo cerca de 5 mil alunos que residem fora da Irlanda. Ela foi criada inicialmente como instituição católica de ensino, em 1854, e posteriormente incorporada à estrutura da National University of Ireland (NUI). Já a escola da UCD é apontada como referência mundial em estudos relacionados à nanotecnologia e a bioprocessos.

Por se tratar de uma colaboração de longa data, a definição do local seguiu essa orientação internacional já consolidada. A vivência na Irlanda se correlaciona com a minha tese principalmente pela estrutura da universidade, que é de ponta e possui grande potencial de caracterização, o que me permitiu avançar na parte de nanomateriais do meu trabalho”, diz a doutoranda, acrescentando que o contato com outros pesquisadores e com outras linhas de pesquisa contribuiu para ampliar e aprimorar sua visão sobre o projeto e a tese. “A experiência com outra língua também foi importante, porque fortaleceu minha comunicação científica e minha capacidade de acompanhar discussões e pesquisas em um contexto internacional”, ressalta Érika.

Se a expertise da universidade e da equipe já eram conhecidos da doutoranda, as surpresas ficaram por conta do país e da cidade. Separado do Reino Unido desde a guerra de independência travada entre 1919 e 1922, a Irlanda tem hoje o segundo maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo e uma economia forte, baseada nas indústrias farmacêutica, energética e informática, que está atraindo muitos brasileiros para estudo ou trabalho. O país também é conhecido por suas altas montanhas, seus campos verdes, a Festa de São Patrício (em 17 de março) e nomes da música (como Sinead O’Connor, Enya, U2 e The Cranberries) e da literatura (como James Joyce, Oscar Wilde e Samuel Beckett). 

Para a sergipana, o destino foi uma grata surpresa. “Nunca havia considerado a Irlanda como uma possibilidade, mas o país rapidamente me conquistou. Hoje, é um lugar pelo qual tenho grande admiração e, se houver oportunidade, certamente retornarei para aproveitá-lo ainda mais. Apesar do clima frio e dos dias frequentemente chuvosos, Dublin possui um charme singular que me encantou profundamente”, comentou, ao descrever a capital do país, que tem 592 mil habitantes e está entre as 30 mais globalizadas do mundo. 

Autor: Gabriel Damásio

Fonte: Asscom Unit