Fotos: Ascom/SMS
Cuidar de forma humanizada é reconhecer que cada paciente tem necessidades específicas. A Prefeitura de Aracaju, por meio da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) implantou no Hospital Desembargador Fernando Franco um protocolo de acolhimento para pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A medida estabelece um fluxo diferenciado de atendimento, desde a chegada à unidade até a realização de procedimentos clínicos, como aferição de pressão arterial, administração de injeções e medição de temperatura. O objetivo é reduzir sobrecargas sensoriais, minimizar a ansiedade e prevenir crises, para transmitir mais segurança e acolhimento ao neurodivergente.
O protocolo prevê identificação imediata do paciente com TEA, por meio de pulseiras específicas, para sinalizar a toda a equipe assistencial a necessidade de um cuidado diferenciado. Além disso, o hospital passa a disponibilizar recursos como óculos escuros descartáveis, protetores auriculares e bolas terapêuticas, ferramentas que ajudam no manuseio sensorial e tornam o ambiente hospitalar mais adaptado às necessidades desse público.
A coordenadora da Rede de Urgência e Emergência da SMS, Leilane Araújo, salientou que o atendimento a pessoas com TEA em situações de urgência exige prioridade legal, comunicação clara e redução de estímulos. “A prioridade é reduzir danos emocionais e sensoriais. Isso passa por evitar filas, ruídos excessivos e integrar a equipe com o conhecimento que a família traz sobre o paciente”, considerou.
A especialista em abordagem e comunicação com neurodivergentes, Roberta Cardoso, responsável pela implementação do eixo institucional do protocolo, explicou que o fluxo foi estruturado com base em três pilares: humanização, segurança e eficácia. “O acolhimento deve priorizar ambientes mais calmos, com menos estímulos visuais e sonoros, além do uso de estratégias visuais para facilitar a comunicação com pacientes não verbais. Sem esses três pilares, a gente não faz absolutamente nada. O ambiente precisa ser seguro e adaptado para evitar crises e tornar o atendimento possível”, afirmou.
Ainda de acordo com Roberta, o protocolo orienta que, em situações de crise, a equipe evite argumentações ou contato físico forçado e reconheça a importância da presença de familiares ou cuidadores no processo. “Acolher pais e responsáveis também faz parte da assistência, já que são eles que ajudam na regulação emocional e na comunicação com o paciente”, destacou.
No eixo clínico, a médica pediatra Dra. Natascha Cabral conduziu a implementação do cuidado centrado no paciente com TEA, com foco na técnica “Diga-Mostre-Fala”, estratégia que orienta os profissionais a explicar, demonstrar e executar procedimentos de forma gradual e previsível. “Esse processo fortalece a confiança do paciente e reduz reações de ansiedade. Quando a equipe sabe que está atendendo um paciente autista, ela precisa compreender que não é só uma questão médica. Existe uma questão sensorial, comportamental e comunicacional envolvida”, pontuou.
Natascha reforçou que a participação da família é essencial para antecipar sensibilidades e orientar a equipe sobre as particularidades do paciente. “Esse alinhamento permite que técnicos, enfermeiros e médicos conduzam o atendimento de forma mais assertiva e respeitosa”, explicou.
O ativista da comunidade autista, Emmanuel Moraes, participou do processo de implementação e avaliou que o protocolo representa um avanço importante na consolidação de um atendimento especializado dentro da rotina hospitalar. “Transformar esse cuidado em padrão fortalece a inclusão e garante mais dignidade às pessoas autistas. O protocolo não é um detalhe. É um padrão de atendimento que precisa fazer parte da rotina e leva em consideração nossas questões”, opinou.
A mãe de Emmanuel, Conceição Moraes, compreende que a qualificação dos profissionais impacta diretamente a experiência das famílias dentro da unidade de saúde. “Reconhecer o papel de pais e cuidadores no processo de atendimento é fundamental para tornar a assistência mais eficiente. Ninguém conhece melhor o filho do que a mãe e quem convive diariamente com ele. Quando a equipe entende isso, o cuidado se torna mais humano e mais eficaz”, observou.
Prevalência de autismo
Segundo o Censo Demográfico de 2022, o Brasil tem 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA, o equivalente a 1,2% da população. A presença desse público em diferentes espaços sociais, incluindo os serviços de saúde, reforça a necessidade de protocolos específicos que garantam um atendimento mais preparado para lidar com demandas sensoriais, comportamentais e comunicacionais. No Hospital Fernando Franco, a nova medida busca justamente tornar esse cuidado mais acessível, previsível e adequado à realidade de pacientes autistas e suas famílias.




