Em um cenário marcado pelo crescimento dos transtornos mentais e pelo aumento da procura por atendimento psicológico, a Psicanálise contemporânea tem ampliado seu espaço no cuidado de pessoas que convivem com traumas profundos e quadros de sofrimento emocional persistente. Em Sergipe, a psicóloga, psicanalista e pesquisadora Dra. Palmira Catarina destaca que a abordagem psicanalítica, especialmente a partir das contribuições do médico e psicanalista húngaro Sándor Ferenczi, tem proporcionado novas perspectivas terapêuticas para pacientes historicamente considerados resistentes aos tratamentos convencionais.

Graduada em Psicologia pela Universidade Cruzeiro do Sul (2018), especialista em Psicanálise pelo Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP), mestre em Psicologia Clínica e da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Palmira também integra o Núcleo de Pesquisa Psi-Relacional, é membro do Grupo Brasileiro de Pesquisa Internacional Sándor Ferenczi e atua como psicóloga e psicanalista em consultório próprio, o Precioso Sig, além de ser responsável técnica do Grupo de Estudos em Psicanálise e Psicoterapia Relacionais (GEPPREL).

Segundo a especialista, quando se fala em “casos impossíveis” não se trata de pessoas sem possibilidade de melhora, mas de pacientes que apresentam intenso sofrimento psíquico, histórico de traumas e grande resistência aos modelos terapêuticos tradicionais. Entre eles estão pessoas com transtornos de personalidade, transtorno de personalidade borderline, esquizofrenia, comportamento suicida e outras condições que exigem acompanhamento clínico altamente especializado.

“Esses pacientes necessitam de uma linguagem baseada no vínculo terapêutico para que possam se aproximar das experiências traumáticas vividas e construir novos significados para elas. São situações que demandam extrema dedicação, acolhimento e compreensão da singularidade de cada história”, explica.

Sofrimento que parece não ter solução

De acordo com Dra. Palmira, é comum que pacientes procurem atendimento acreditando que não existe mais saída para o próprio sofrimento emocional. Um dos fatores associados a esse sentimento é aquilo que ela denomina de “analfabetismo emocional”, caracterizado pela dificuldade em reconhecer, compreender e nomear os próprios sentimentos.

“Muitas pessoas sequer conseguem falar sobre a dor que carregam. Elas desconhecem seus processos emocionais e também como funciona o tratamento psicológico, o que reforça a sensação de desesperança”, destaca.

Na Psicanálise, o tratamento vai além da redução dos sintomas. O objetivo é compreender os significados inconscientes relacionados ao sofrimento e integrar experiências traumáticas à história de vida do paciente.

“A proposta não é apenas eliminar sintomas, mas ressignificar experiências fragmentadas e dolorosas. A chamada ‘cura pela fala’ permite que aquilo que permaneceu silenciado encontre espaço para ser elaborado, favorecendo uma relação mais saudável consigo mesmo”, informa.

Tratamento voltado à origem do sofrimento

Enquanto algumas abordagens concentram seus esforços na modificação de comportamentos ou no controle dos sintomas, a Psicanálise investiga os processos inconscientes que sustentam o sofrimento psíquico.

“A Psicanálise é um método clínico de investigação do inconsciente, fundado por Sigmund Freud. O diferencial está justamente na busca pela origem dos conflitos emocionais, procurando compreender a raiz do sofrimento, e não apenas seus efeitos”, pontua Dra. Palmira.

Essa compreensão torna-se especialmente relevante quando os traumas ocorreram durante a infância.

Segundo Palmira, experiências como violência física, abuso sexual, violência verbal, negligência afetiva, ausência de acolhimento e ambientes emocionalmente inseguros podem comprometer significativamente a constituição psíquica do indivíduo.

“As consequências podem aparecer na vida adulta sob a forma de ansiedade, depressão, dificuldades para confiar nas pessoas, repetição de padrões disfuncionais, baixa autoestima, sentimentos constantes de culpa, vergonha e inadequação, além de dificuldades para estabelecer vínculos saudáveis”, conta.

Ela ressalta ainda que, sem tratamento, essas feridas emocionais podem favorecer mecanismos de defesa prejudiciais, como isolamento afetivo e comportamentos autodestrutivos.

A contribuição de Sándor Ferenczi

Grande parte da atuação clínica de Palmira é fundamentada na obra de Sándor Ferenczi, considerado um dos mais importantes colaboradores de Sigmund Freud e um dos principais responsáveis pela modernização da Psicanálise voltada ao trauma.

Ferenczi revolucionou a compreensão da traumatologia psíquica ao defender que o tratamento deve ser construído em uma relação marcada pela empatia, pelo acolhimento e pela participação ativa do analista.

“Ele rompeu com a ideia de um terapeuta distante e completamente neutro. Demonstrou que a empatia do profissional constitui uma ferramenta terapêutica essencial para pacientes profundamente traumatizados”, ressalta.

Entre suas principais contribuições está a chamada elasticidade da técnica, que propõe adaptar o método às necessidades do paciente, criando um ambiente seguro para que experiências dolorosas possam ser elaboradas.

Outro conceito central é o da ‘Confusão de Línguas’, no qual Ferenczi descreve como crianças submetidas a situações abusivas vivenciam uma profunda ruptura emocional ao serem expostas à “linguagem da paixão” dos adultos, incompatível com a “linguagem da ternura” própria da infância, produzindo traumas psíquicos de grande intensidade.

Uma ética do cuidado

Na perspectiva ferencziana, reconstruir vínculos rompidos exige uma verdadeira ética do cuidado.

Palmira explica que esse processo terapêutico está fundamentado em pilares clínicos como:

* o analista como testemunha empática da dor do paciente;
* acolhimento afetivo e sensibilidade clínica;
* flexibilização da técnica tradicional;
* criação de um ambiente emocionalmente seguro;
* superação das defesas construídas em torno do trauma, permitindo uma expressão mais autêntica do sofrimento.

“A proposta é oferecer um espaço onde o paciente finalmente possa ser ouvido, validado e acolhido. Muitos indivíduos traumatizados nunca tiveram essa experiência ao longo da vida.”

Quem pode se beneficiar da Psicanálise?

Segundo a especialista, o processo psicanalítico pode beneficiar pessoas que convivem com sofrimento emocional persistente, dificuldades relacionais, ansiedade, conflitos internos recorrentes e traumas ainda não elaborados.

Entre os principais benefícios observados estão:

* ampliação do autoconhecimento;
* elaboração e ressignificação de traumas;
* melhora da qualidade dos relacionamentos;
* fortalecimento da capacidade de estabelecer vínculos;
* redução da ansiedade decorrente de conflitos inconscientes;
* desenvolvimento de maior compreensão sobre si mesmo.

Embora a busca precoce por ajuda possa favorecer melhores resultados, Palmira reforça que nunca é tarde para iniciar o tratamento.

“Cada pessoa possui seu próprio tempo, mas o importante é buscar ajuda e enfrentar aquilo que mantém o sofrimento se repetindo”, aconselha.

Transformação é possível

Ao longo da experiência clínica, Dra. Palmira afirma observar resultados consistentes mesmo em pacientes inicialmente considerados de difícil tratamento.

Ela destaca que elementos como reciprocidade, acolhimento afetivo, tato clínico, elasticidade técnica e validação da experiência traumática têm possibilitado importantes processos de transformação.

“A maior dificuldade é conquistar a confiança de alguém profundamente ferido. Quando essa confiança é construída, torna-se possível iniciar um processo genuíno de ressignificação das experiências traumáticas”, relata.

Para a especialista, um dos maiores legados de Ferenczi permanece extremamente atual: compreender que a relação terapêutica precisa ser profundamente humana.

“O tato psicanalítico, a elasticidade da técnica, o abandono da frieza clínica e a valorização da contratransferência transformaram a maneira como compreendemos e tratamos os traumas. O sofrimento emocional não deve ser reduzido ao sintoma; ele precisa ser acolhido, compreendido e elaborado para que o paciente possa construir novas formas de existir e de se relacionar consigo mesmo e com o mundo”, finaliza.