Ansiedade e depressão continuam liderando as licenças, impulsionadas por sobrecarga, precarização e estigmas persistentes

Em 2024, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) contabilizou 472.328 afastamentos motivados por transtornos mentais e comportamentais, com destaque para quadros de ansiedade e depressão. O número, que representou um aumento aproximado de 68% em relação a 2023, não foi um evento isolado. Levantamentos recentes de entidades sindicais e especialistas em saúde do trabalhador apontam que os afastamentos por questões psicológicas se mantiveram elevados nos anos seguintes, evidenciando que o adoecimento mental relacionado ao trabalho segue como um problema estrutural no Brasil.

Mesmo em 2026, o tema continua no centro das discussões sobre relações de trabalho, produtividade e sustentabilidade organizacional. Pressões por metas, excesso de demandas, insegurança profissional e modelos de gestão pouco preparados continuam aparecendo como fatores recorrentes. Para a psicóloga e professora da Universidade Tiradentes (Unit), Ana Karolina Silveira, é fundamental distinguir o estresse cotidiano de um quadro de adoecimento psicológico mais profundo.

“A forma como as pessoas se relacionam com o trabalho hoje está diretamente ligada ao lugar social que ocupam. Muitas se identificam e se definem pelo cargo e pelas exigências profissionais do dia a dia. Reconhecer que o estresse faz parte da rotina é admitir uma realidade, mas o que diferencia o estresse comum de um processo patológico é o impacto sobre a vida pessoal e a capacidade de descanso”, explica.

Segundo Ana, no estresse patológico surgem sinais como dificuldades para dormir, irritabilidade frequente e pensamentos constantemente voltados para o trabalho, mesmo fora do horário laboral. “O descanso deixa de cumprir sua função restauradora. A pessoa sai de férias e retorna ainda mais cansada, e chega ao fim de semana já exaurida. O adoecimento ultrapassa a carga de trabalho e compromete a recuperação física e emocional”, contextualiza.

Sobrecarga e romantização da exaustão

A psicóloga aponta a combinação de fatores organizacionais e culturais como um dos principais motores do aumento dos casos de ansiedade e depressão entre trabalhadores. “Há uma romantização da exaustão, em que a produtividade constante, inclusive durante o tempo de descanso, passa a ser valorizada. Dentro dessa lógica, quem desacelera tende a sentir culpa”, destaca.

Esse cenário é intensificado por gestões despreparadas e ambientes altamente competitivos, nos quais líderes frequentemente reforçam a ideia de que o ‘bom funcionário’ é aquele que está sempre sobrecarregado. “Essa dinâmica transforma a própria cultura organizacional em um fator de adoecimento. Não se trata apenas de pressão individual, mas de uma pressão institucionalizada que atravessa o ambiente de trabalho”, pontua.

Quando a precarização se soma a esse contexto, com instabilidade financeira e medo do desemprego, muitos trabalhadores permanecem em atividade mesmo apresentando sinais evidentes de adoecimento. “O afastamento só acontece quando a exaustão atinge um nível extremo, quando já não há alternativa”, afirma a psicóloga, ressaltando que a precarização amplia a vulnerabilidade emocional.

Resiliência distorcida

Outro ponto destacado por Ana Karolina é a forma distorcida como o conceito de resiliência tem sido aplicado nas relações de trabalho. “Existe a expectativa de que o indivíduo dê conta de tudo, independentemente das condições oferecidas. Isso minimiza o sofrimento e transfere para o trabalhador a responsabilidade por problemas que são estruturais e coletivos”, afirma.

A psicóloga ressalta que, embora características individuais influenciem a experiência de adoecimento, elas não explicam o fenômeno isoladamente, sem considerar o contexto social e organizacional. “Questões como desigualdades de gênero também precisam ser consideradas. Enquanto homens ainda enfrentam cobranças para não demonstrar fragilidade, mulheres frequentemente acumulam funções profissionais, domésticas e familiares, sem reconhecimento ou suporte adequados”, observa.

Estigma, redes de apoio e responsabilidades empresariais

Ao abordar o estigma ainda associado à busca por apoio psicológico, Ana Karolina avalia que, apesar do avanço da psicologia e da psiquiatria nos últimos anos, o acolhimento no ambiente de trabalho ainda é insuficiente. “Muitas empresas entendem o cuidado com a saúde mental apenas como ações pontuais. No entanto, a promoção da saúde emocional precisa ser contínua e integrada à cultura organizacional”, destaca.

Sobre o papel das empresas, a psicóloga enfatiza que lideranças capacitadas para lidar com pessoas e ambientes seguros são essenciais para prevenir o adoecimento. Para ela, humanizar o trabalho não exige necessariamente a presença de um psicólogo interno, mas o investimento em práticas consistentes de escuta, acolhimento e suporte.

Legislação, atendimento público e mudança cultural

Em relação à atualização da NR-1, Norma Regulamentadora que passou a contemplar os riscos psicossociais, Ana Karolina reforça a relevância da proteção legal ao trabalhador. “A norma obriga as empresas a identificar fatores como assédio, sobrecarga e clima organizacional, tornando a saúde mental um aspecto normativo e passível de fiscalização. Isso representa um avanço importante nos direitos trabalhistas”, afirma.

Quanto à rede pública de saúde, a psicóloga reconhece o papel fundamental do Sistema Único de Saúde (SUS), dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e das Unidades Básicas de Saúde (UBS), mas destaca que a crescente demanda ainda supera a capacidade de atendimento, devido à escassez de recursos, profissionais e investimentos. “Transformações profundas na cultura organizacional levam tempo e exigem constância. Falar sobre o tema já é um passo essencial”, conclui.

Por: Laís Marques

Fonte: Asscom Unit

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